domingo, 6 de junho de 2004
café na caneca do FP
Acabou de levantar a mesa e foi à cozinha buscar o aspirador pequenino para aspirar as migalhas da toalha. Voltou a guardá-lo no armário ao pé da porta. Estendeu o pano de trabalho por cima da toalha da mesa onde depositou depois, com cuidado o computador. E começou a trabalhar. Levantou-se pouco depois e voltou à cozinha. Encheu o jarro eléctrico de água, ligou-o à corrente. Olhou pela janela a quietude do pátio traseiro naquela tarde de calor. Abriu o armário dos copos para tirar uma caneca. Procurou por detrás das que via e não a encontrou. Fechou o armário e abriu outro de onde retirou o nescafé. A água parou de borbulhar no jarro. Estava quente. Dentro da máquina encontrou a caneca branca e estreita, com palavras de Fernando Pessoa. Trazia dentro os restos do café do dia anterior. Enquanto a passava por água, com o cuidado de quem tem nas mãos um objecto querido lembrou-se de um filme com uma cena parecida. E sorriu. Abriu o frasco, varreu o pó castanho para dentro da caneca e encheu-a de água quente até meio. O cheiro amargo invadiu a cozinha. Regressou ao computador com um misto de café e poesia entre as mãos. A única combinação que a permitiria sobreviver ilesa a uma tarde quente de trabalho.
luzes
sabem aqueles dias em que o sol invade a janela logo pela manhã e o dia promete ser feliz?
sabem os outros dias em que, por muito sol que invada as muitas janelas, as radições do ecrã são mais intensas.
Então há que escrever que há dias de sol na vida, quanto mais não seja para nos convencermos disso!
um mega sorriso para quem está a trabalhar
sabem os outros dias em que, por muito sol que invada as muitas janelas, as radições do ecrã são mais intensas.
Então há que escrever que há dias de sol na vida, quanto mais não seja para nos convencermos disso!
um mega sorriso para quem está a trabalhar
sábado, 5 de junho de 2004
um filme muito educado
Depois de 5m de qualquer filme de Pedro Almodovar estou rendida. Rendida às cores saturadas e quentes que me enchem a alma, aos detalhes decorativos retro que me fazem sorrir. 5minutos é o tempo necessário para me sentir familiar e confortável a olhar em castelhano o grande ecrã. Mas até eu que fico perdida nos pormenores consigo perceber que um filme é mais que cor e adereço.
A expectativa que levava comigo para a sala de cinema era perigosamente grande. Já tinha ouvido os mais diversos comentários em relação a esta Mala Educacion: que era forte, que era chocante, que era uma decepção.
Achei-o um filme bem educado. (arrisco até a dizer, delicado)
Uma história forte (porque fala de abusos sexuais, de pedofilia, de uma instituição igreja sem moral e do ser humano pronto a xular o ser humano)
Sem cenas chocantes ou decepcionantes (porque nada é retratado de uma forma fria, nua)
A tensão de algumas cenas é puramente estética (e daí a delicadeza): é fotografia e som que envolvem e deslumbram sempre, sempre com o corpo como elemento dominante (o jogo da bola ao som do Kírie, as canções do jovem colegiano, o fabuloso mergulho na piscina, os cabeçudos).
E os personagens são muito personagens: um mundo de sentimentos muito puros encobertos por muitas camadas de maquilhagem, por vezes bem visível, outras pouco assumida.
E além da cor e dos ambientes que me fascinam, Almodovar trouxe-me desta vez o suspenso dos corpos que transportam histórias com eles. Não é um filme que seduza facilmente como os últimos dois. É um filme que obriga a parar, pensar e escrever. E isso é fascinante.
A expectativa que levava comigo para a sala de cinema era perigosamente grande. Já tinha ouvido os mais diversos comentários em relação a esta Mala Educacion: que era forte, que era chocante, que era uma decepção.
Achei-o um filme bem educado. (arrisco até a dizer, delicado)
Uma história forte (porque fala de abusos sexuais, de pedofilia, de uma instituição igreja sem moral e do ser humano pronto a xular o ser humano)
Sem cenas chocantes ou decepcionantes (porque nada é retratado de uma forma fria, nua)
A tensão de algumas cenas é puramente estética (e daí a delicadeza): é fotografia e som que envolvem e deslumbram sempre, sempre com o corpo como elemento dominante (o jogo da bola ao som do Kírie, as canções do jovem colegiano, o fabuloso mergulho na piscina, os cabeçudos).
E os personagens são muito personagens: um mundo de sentimentos muito puros encobertos por muitas camadas de maquilhagem, por vezes bem visível, outras pouco assumida.
E além da cor e dos ambientes que me fascinam, Almodovar trouxe-me desta vez o suspenso dos corpos que transportam histórias com eles. Não é um filme que seduza facilmente como os últimos dois. É um filme que obriga a parar, pensar e escrever. E isso é fascinante.
quinta-feira, 3 de junho de 2004
Porque
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
[Sophia de Mello Breyner Andersen]
Às vezes tenho a certeza que quero continuar a acreditar nesta espécie de ingenuidade crítica, que torna a passagem pelo mundo menos confortavel e mais autêntica!
porque os outros são os outros e eu não.
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
[Sophia de Mello Breyner Andersen]
Às vezes tenho a certeza que quero continuar a acreditar nesta espécie de ingenuidade crítica, que torna a passagem pelo mundo menos confortavel e mais autêntica!
porque os outros são os outros e eu não.
segunda-feira, 31 de maio de 2004
sexta-feira, 28 de maio de 2004
o melhor de 4m
...vieste tu feiticeira
empurrão controlado, escorrega do colo, rebola, rebola esticada pelo chão rebola e levanta até ficar de joelho esquerdo no chão, o direito no ar, mais à frente, o braço esticado e a apontar a diagonal
inundar-me de vi….iiiiiida
salto para as costas, braços abertos, firmes e a olhar o chão, ombros colocados, corpo hirto, pernas juntas e livres do corpo, cabeça caída para trás, olhos fechados para aproveitar melhor as quatro voltas de voo pelos céus de um qualquer pavilhão gimnodesportivo. manter os braços em voo e o corpo esticado, encaixe pernas com pernas, relaxar para traz no regresso à terra.
(o melhor de 4minutos de esquema)
empurrão controlado, escorrega do colo, rebola, rebola esticada pelo chão rebola e levanta até ficar de joelho esquerdo no chão, o direito no ar, mais à frente, o braço esticado e a apontar a diagonal
inundar-me de vi….iiiiiida
salto para as costas, braços abertos, firmes e a olhar o chão, ombros colocados, corpo hirto, pernas juntas e livres do corpo, cabeça caída para trás, olhos fechados para aproveitar melhor as quatro voltas de voo pelos céus de um qualquer pavilhão gimnodesportivo. manter os braços em voo e o corpo esticado, encaixe pernas com pernas, relaxar para traz no regresso à terra.
(o melhor de 4minutos de esquema)
terça-feira, 25 de maio de 2004
E viveram felizes para sempre
Detesto filmes românticos. Sempre detestei.
Provavelmente porque me irritam histórias de amor convencionais de final feliz (isso deve explicar o porquê da sua inexistência na minha vida).
Seguramente porque sou a pessoa menos romântica à face da terra (leia-se romantismo igual a pieguice aguda e cor de rosa) Digo sempre que sou é gótica, que é um período bem mais interessante e com menos melodramas exacerbados.
E no entanto, houve qualquer coisa no último filme de Michel Gondry* (que é, para todos os efeitos, uma história-de-amor-de-final-feliz) que me ficou cá dentro a sussurrar. Qualquer inesperado surreal que me fez pensar que o amor está para além da razão, que o coração arranja estratagemas para se impor à mente. Qualquer coisa pouco nítida que me fez sentir que, se há inteligência à face da terra, é a emociona.
E saí da sala de cinema em estado de divagação sorridente!
É que também eu tive, em tempos, o cabelo azul e uma irreverência adolescente.
* O despertar da mente (para ir ver rapidamente)
Provavelmente porque me irritam histórias de amor convencionais de final feliz (isso deve explicar o porquê da sua inexistência na minha vida).
Seguramente porque sou a pessoa menos romântica à face da terra (leia-se romantismo igual a pieguice aguda e cor de rosa) Digo sempre que sou é gótica, que é um período bem mais interessante e com menos melodramas exacerbados.
E no entanto, houve qualquer coisa no último filme de Michel Gondry* (que é, para todos os efeitos, uma história-de-amor-de-final-feliz) que me ficou cá dentro a sussurrar. Qualquer inesperado surreal que me fez pensar que o amor está para além da razão, que o coração arranja estratagemas para se impor à mente. Qualquer coisa pouco nítida que me fez sentir que, se há inteligência à face da terra, é a emociona.
E saí da sala de cinema em estado de divagação sorridente!
É que também eu tive, em tempos, o cabelo azul e uma irreverência adolescente.
* O despertar da mente (para ir ver rapidamente)
sexta-feira, 14 de maio de 2004
há planetas especiais no nosso céu!
Quando me deram a notícia da morte do meu avô, eu estava a dar aulas, tranquila, na sala lá do fundo, ao lado da árvore velha. E sentí-me triste e pequenina. E os meus alunos olhavam-me espantados e silenciosos.
_ ana, porque é que há bocado estavas a chorar?
_ é que hoje me vieram dar uma notícia triste.
_ áahhh. (silêncio) Morreu alguém?
_ foi Marta, morreu o meu avô.
(silêncio de novo mas desta vez pensativo)
_ e onde é que ele está agora?
_ não sei Marta. Onde é que tu achas que ele está?
E como que intuíndo que nestas alturas os gestos dizem mais que muitas palavras, a Marta apontou o indicador pequenino para cima, em direcção ao céu.
E eu sorri.
_ se calhar o meu avô agora é uma estrela_ disse-lhe.
(mais silêncio muito pensativo)
_ ... ou um planeta. se calhar o teu avô agora é um planeta!
Esta é a melhor explicação que alguma vez me deram sobre o assunto. E foi-me dada pela Marta, uma menina serena de sete anos.
É que os planetas são qualquer coisa mais estavel, de que não esquecemos nem nome nem as características.
Um beijinho grande de força ao Pedro e à Rita.
_ ana, porque é que há bocado estavas a chorar?
_ é que hoje me vieram dar uma notícia triste.
_ áahhh. (silêncio) Morreu alguém?
_ foi Marta, morreu o meu avô.
(silêncio de novo mas desta vez pensativo)
_ e onde é que ele está agora?
_ não sei Marta. Onde é que tu achas que ele está?
E como que intuíndo que nestas alturas os gestos dizem mais que muitas palavras, a Marta apontou o indicador pequenino para cima, em direcção ao céu.
E eu sorri.
_ se calhar o meu avô agora é uma estrela_ disse-lhe.
(mais silêncio muito pensativo)
_ ... ou um planeta. se calhar o teu avô agora é um planeta!
Esta é a melhor explicação que alguma vez me deram sobre o assunto. E foi-me dada pela Marta, uma menina serena de sete anos.
É que os planetas são qualquer coisa mais estavel, de que não esquecemos nem nome nem as características.
Um beijinho grande de força ao Pedro e à Rita.
quinta-feira, 13 de maio de 2004
o meu herói Fernando Pessoa
Para ser grande, sê inteiro: nada
teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
[Ricardo Reis]
teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
[Ricardo Reis]
quarta-feira, 12 de maio de 2004
construír a utopia
" ...por nós e por quem há-de vir
o importante é construír a utopia!
É ter princípios e não os negociar mas lutar por eles."
[Renato Bispo; Associação Projectar para Todos
in| Comunicar: design04]
Ás vezes sabe bem ouvir dizer tanto em tão poucas palavras.
o importante é construír a utopia!
É ter princípios e não os negociar mas lutar por eles."
[Renato Bispo; Associação Projectar para Todos
in| Comunicar: design04]
Ás vezes sabe bem ouvir dizer tanto em tão poucas palavras.
terça-feira, 11 de maio de 2004
o desespero
de um curso interminavel para acabar
pelos dias não terem mais de 24 horas
pelo cansaço matar a inspiração (mesmo de quem não acredita em tal coisa)
pelo tempo não chegar para aquilo que faz sentido fazer
ps | bolas, há alturas na vida que só apetece mandar tudo e todos à merda e emigrar para ao pé dos pinguins!
pelos dias não terem mais de 24 horas
pelo cansaço matar a inspiração (mesmo de quem não acredita em tal coisa)
pelo tempo não chegar para aquilo que faz sentido fazer
ps | bolas, há alturas na vida que só apetece mandar tudo e todos à merda e emigrar para ao pé dos pinguins!
sexta-feira, 7 de maio de 2004
a menina do trapezio voador.
voar alto, mais perto do céu
desafiar as leis da gravidade, sem rede, sem segurança, sem estabilidade
gerhard richter | uma colecção privada
Museu do Chiado
Visitas guiadas (Marcação prévia, acesso gratuito)
Pedro Lapa: 11 Maio. Terça-feira. 18.30 h
María Jesús Ávila: 1 Junho. Terça-feira. 18.30 h
Emília Tavares: 15 Junho. Terça-feira. 18.30 h
Conferências (Acesso livre e gratuito)
Pedro Lapa: 18 Maio. Terça-feira. 18.30 h
Nuno Crespo: 1 Junho. Terça-feira. 18.30 h
Visitas guiadas (Marcação prévia, acesso gratuito)
Pedro Lapa: 11 Maio. Terça-feira. 18.30 h
María Jesús Ávila: 1 Junho. Terça-feira. 18.30 h
Emília Tavares: 15 Junho. Terça-feira. 18.30 h
Conferências (Acesso livre e gratuito)
Pedro Lapa: 18 Maio. Terça-feira. 18.30 h
Nuno Crespo: 1 Junho. Terça-feira. 18.30 h
terça-feira, 4 de maio de 2004
é que hoje acordei e lembrei-me...
Não falei contigo com medo que os montes e vales que me achas
caissem a teus pés
acredito e entendo que a estabilidade lógica de quem não quer explodir
faça bem ao escudo que és
saudade é o ar que vou sugando e aceitando
como fruto de Verão nos jardins do teu beijo...
Mas sinto que sabes que sentes também que um dia maior serás trapézio sem rede
a pairar sobre o mundo e tudo o que vejo...
É que hoje acordei e lembrei-me...
[a carta, toranja]
é mais bonito ouvido que lido!
caissem a teus pés
acredito e entendo que a estabilidade lógica de quem não quer explodir
faça bem ao escudo que és
saudade é o ar que vou sugando e aceitando
como fruto de Verão nos jardins do teu beijo...
Mas sinto que sabes que sentes também que um dia maior serás trapézio sem rede
a pairar sobre o mundo e tudo o que vejo...
É que hoje acordei e lembrei-me...
[a carta, toranja]
é mais bonito ouvido que lido!
segunda-feira, 3 de maio de 2004
Lisboa.Milão.Lisboa.Barcelona.Lisboa
Já tenho saudades tuas!
Deve ser de agora saber
que se te quiser encontrar
estás fisicamente mais longe.
Deve ser de não te poder ter
Aqui bem perto pra falar
Gritar e sussurrar
Os dramas da vida e os pesos da alma
E admiro essa tua coragem de quem vive no mundo
Sem prescindir de quem fica em Lisboa
E admiro essa garra com que agarras novos desafios
Guarda-me um pedaço de espaço catalão
e podes ficar à espera
Que eu vou aparecer!
(Um grande beijinho, Cláudia)
Deve ser de agora saber
que se te quiser encontrar
estás fisicamente mais longe.
Deve ser de não te poder ter
Aqui bem perto pra falar
Gritar e sussurrar
Os dramas da vida e os pesos da alma
E admiro essa tua coragem de quem vive no mundo
Sem prescindir de quem fica em Lisboa
E admiro essa garra com que agarras novos desafios
Guarda-me um pedaço de espaço catalão
e podes ficar à espera
Que eu vou aparecer!
(Um grande beijinho, Cláudia)
domingo, 2 de maio de 2004
ousar ser diferente
é saber ser fiel ao interior e aprender a lidar com as reacções dos outro. sem medos.
é aceitar-me independentemente do que os outros aceitam em mim (ou neles).
é ser mais livre (e mais solitário)
é aceitar-me independentemente do que os outros aceitam em mim (ou neles).
é ser mais livre (e mais solitário)
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